Inteligência emocional e a tentativa contemporânea de escapar da dor de existir
Nos últimos anos, a ideia de inteligência emocional tornou-se um ideal quase obrigatório. Aprendemos que pessoas maduras seriam aquelas capazes de controlar emoções, manter estabilidade constante e reagir de forma equilibrada diante de qualquer situação.
A promessa é simples: quanto maior a inteligência emocional, menor o sofrimento.
Mas talvez exista um equívoco silencioso nessa promessa.
O conceito, originalmente proposto para ampliar a compreensão das emoções humanas, passou a ser absorvido por uma cultura que valoriza desempenho contínuo. Aos poucos, emoções deixaram de ser experiências a serem compreendidas e passaram a ser tratadas como variáveis que precisam ser administradas.
Ser emocionalmente inteligente passou a significar:
não se abalar demais,
não reagir excessivamente,
não interromper o funcionamento.
Como se maturidade emocional fosse uma forma refinada de adaptação.
No entanto, aquilo que frequentemente tentamos corrigir pode não ser um erro psicológico, mas uma dimensão inevitável da própria existência.
A filósofa Dulce Critelli descreve algo que atravessa todos nós: a dor de ser. Em determinados momentos da vida, sentimos um estranhamento profundo diante da própria existência, como se nos tornássemos estrangeiros em nossa própria história. Não sabemos quem somos, nem quem podemos vir a ser. Algo perde sentido, e surge o desejo de que alguém nos explique o viver.
Essa experiência não é patológica. É humana.
Segundo Critelli, não suportamos apenas existir; precisamos ser nós mesmos. E essa tarefa não possui modelos prontos. Somos, ao mesmo tempo, autores, atores e juízes da própria vida, condição que inevitavelmente nos coloca diante do risco, da dúvida e da angústia.
Talvez seja justamente essa dimensão que a cultura contemporânea tente suavizar quando transforma emoções em competências treináveis.
Se a dor de existir pode ser interpretada como falha emocional, então ela parece solucionável. Basta aprender a se regular melhor.
Mas o sofrimento humano nem sempre pede controle. Muitas vezes pede pensamento.
Critelli afirma que pensar não é acumular análises ou explicações, mas interromper o fluxo incessante de ideias para escutar aquilo que ainda não foi compreendido em nós. Pensar começa por parar.
E é nesse silêncio que algo diferente acontece: começamos a nos ouvir.
Sob essa perspectiva, a busca obsessiva por equilíbrio emocional pode funcionar como uma tentativa de evitar o encontro com aquilo que nos constitui; nossa abertura, nossa incompletude, nossa singularidade.
Em outro texto, Critelli escreve: “Justo a mim me coube ser eu”. A frase expressa o espanto fundamental da condição humana: cada pessoa recebe a própria existência sem manual, sem garantia e sem modelo definitivo. Ser alguém não é um dado pronto, mas um processo contínuo de construção, feito de escolhas, erros, revisões e recomeços.
Talvez o desconforto que tentamos eliminar em nome da inteligência emocional seja justamente o espaço onde a vida se torna singular.
Porque ser humano não é alcançar estabilidade definitiva.
É viver como projeto aberto.
Inteligência emocional, então, talvez não seja controlar emoções, mas sustentar a experiência de existir sem reduzir cada perturbação a uma falha pessoal.
Sentir medo diante das escolhas, angústia diante do futuro ou dúvida diante de si mesmo não indica imaturidade. Indica que estamos implicados na tarefa (sempre inacabada) de nos tornar quem somos.
A dor de ser não desaparece quando aprendemos técnicas emocionais. Ela se transforma quando conseguimos pensá-la.
E talvez seja justamente aí que começa algo próximo do amadurecimento: não quando deixamos de sofrer, mas quando compreendemos que sentir faz parte do risco inevitável de existir.
para continuar pensando
Talvez o sofrimento contemporâneo não venha do excesso de emoções, mas da tentativa constante de não se afetar por aquilo que viver exige de nós.
“A dor de ser faz parte da nossa natureza. Não aguentamos apenas ser; temos de ser nós mesmos.”
— Dulce Critelli
leituras que atravessam este texto
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Dulce Critelli — Analítica do Sentido
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Jorge Larrosa — O saber da experiência
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Byung-Chul Han — A Sociedade do Cansaço
Renan Pimenta
Psicólogo Clínico | Psicanálise e Neuropsicologia - CRP 06/163709
referências
CRITELLI, Dulce. Pensar a vida, saltar o abismo. Folha de S.Paulo, caderno Equilíbrio, 22 jul. 2004.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2207200414.htm
CRITELLI, Dulce. Justo a mim me coube ser eu! Folha de S.Paulo, caderno Equilíbrio.